We cannot find peace by avoiding life

A primeira vez que entrou no mar deixou que a água lhe chegasse até ao pescoço.
Sentiu o frio eriçar cada pelo do seu corpo como se fossem algas num lento bailado presas a um coral.

Notou que esta sensação se misturava com o que sentia na barriga num fluxo osmótico imaginado parecido com os que já havia visto no livro de ciências da irmã.
Os dedos dos pés, qual minúsculas retroescavadoras, já mal colhiam a areia, metro e meio abaixo de si.
Estava prestes a levantar voo numa imensidão azul e não sabia voar.
Nem nadar.

Olhou para o horizonte,
quis saber como havia tanto mundo se não conseguia ver nada depois daquela linha.
O que há para além é o que ainda não conheci, pensou decidida.

O desconhecido próximo veio numa onda. Não que tenha se surpreendido mas concluiu que por muito que já esperasse por ela, não foi como imaginara. Não mergulhou como a sereia dos desenhos animados.
Água nariz a dentro, sal nos olhos, cabelos na cara.
Atingida por novas e ameaçadoras sensações num ambiente que não controlava.
Antes mesmo de ter pisado a beira da praia, fantasiava ser uma heroína que controlava as forças da natureza. Jogava bolas de areia nas ondas para aplacar a sua fúria qual virgem vudu atirada ao vulcão.

Aturdida pelo que passara, decidiu-se por aprender a estar ali. Fruiu a falar com a água como se também fosse um elemento e pudesse dissolver-se nela.

Foi apanhada desprevenida pela segunda vaga, esta mais forte. Bolhas de ar a rebentarem, o nariz tapado em baixo daquela desordem, braços e pernas a procurar pela luz da superfície. Inspirou aliviada. Com força. Orgulhosa do seu pequeno feito. O ar que absorvia dava-lhe fé.
E alimentava de energia suas veias transformadas em rio que ali desaguava.
Mas tinha medo.

Tinha medo daquela imensidão imprevisível.
Tinha medo que algum bicho aparecesse e lhe puxasse deixando a sem escapatória.
Tinha medo do que não via, do que não conhecia.
Mas foi o medo de não se sentir viva que a manteve ali.
Queria experimentar aquilo.

Havia uma sensação de possibilidade tão grande que a fez compreender a dor e a felicidade, o escuro do desconhecido, a curiosidade obstinada: era a vida ali, a acontecer.

Olhou em frente e descobriu-se no palco. O horizonte, tornado plateia. O sereno marulhar desfez-se em palmas.
Estava em paz.

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