Alex Aquibar no divã

Começou com uma pequena equação: x + y = me.

Eu ainda me assemelhava a um girino quando os pais dele vibraram ao saber que eu seria o responsável pelo nome, o quarto azul e a camisola encarnada do clube. Quando vi a luz do dia, depois de estar 9 meses aprisionado, permiti que todo o sumo de manga, o leite de soja e aquela lambreta da noite anterior fossem expelidos de forma a causar inveja ao Esguicho Manuelino. As enfermeiras correram a limpar, a médica riu-se, a mãe deliciou-se. Ele aliviou-se. Toda aquela atenção em torno de mim…seria impossível não pensar: estava ali alguém de valor.

Posso igualmente dizer que fui o seu primeiro brinquedo. Nas tardes de ócio a seguir à sesta eu era o Minhocas. Comigo ele se entretinha, ocupava, acalmava naturalmente. Eu era um género de Play-Doh que dava asas à sua criatividade e foi por volta desta fase que conhecemos o hedonismo idílico puro e pueril. Por essa altura Ele tinha 6 anos e via no seu pai um modelo com quem se identificar ainda que não soubesse muito bem o que isto era. Mas gostava da felicidade que a mãe exalava depois de estarem juntos.

Foi num fim de semana que a primeira mudança se deu. Era um daqueles raros domingos de sol em Peniche, a praia estava cheia e eu podia sentir que a preocupação dele era que o seu castelo de areia contruído à beira de um mar que estava a encher não desabasse. Veio uma onda mais forte e com ela, Carolina. Loira como os raios do sol. Talvez tenha sido este facto que de alguma forma marcou a sua preferência daí para frente. Pediu para me conhecer e Ele entre a incerteza do que fazer e a excitação da surpresa pareceu involuntariamente direcionar o sangue do seu cérebro para mim, permitindo à Carolina puxar o elástico que prendia o seu calção de praia azul com estampa de âncoras brancas. “Mostro-te o meu também. E assim guardamos o segredo um do outro.” Entramos num novo mundo, numa nova fase da nossa relação. E eu aprendi que aquilo que a Carolina lhe despertava fazia com que aquele meu corpo de plasticina se transformasse num souvenir das Caldas da Rainha.

Comecei a sentir alterações efetivas em mim quando a voz dele começou a mudar. Também o meu visual mudou. De Moby passei à Slash e tudo ganhava novas dimensões. Ele ainda não sabia muito bem o que fazer comigo, dado que eu crescia na mesma velocidade que ele e muitas vezes o obrigava a comprar pares de calças novas já que – estando eu numa idade de rebeldia – acabava muitas vezes por rasgar o cavalo das Levi´s 501.

Mas Ele era tímido, não tinha a iniciativa necessária para dar vazão ao que nós – e particularmente eu – guardávamos e partilhávamos. Um dia seu pai esqueceu o jornal na sala e ao folheá-lo Ele encontrou uma série de números de telefone num anúncio que prometia uma sensação “nunca antes experimentada”. Mas o buraco do discador era muito pequeno e acabou por desistir. Ele sentia-se solitário, mesmo sabendo que que eu estava ali e que com a sua mão amiga estendida, pronta para me acolher…quem precisava delas?…Ele precisava! E a medida que crescíamos isto tornava-se mais evidente.

No dia em que completou 18 anos pediu aos pais uma viagem. Estávamos os dois sozinhos como sempre, mas desta vez num bar em Amsterdão. Ele reparou que o álcool era um bom aliado para ultrapassar a barreira de um primeiro contato, ainda que eu não conseguisse achar a mesma piada. Alguém ia se chatear. Ela disse que vivia num sítio chamado De Wallen. Ele só falava inglês e achou que aquela informação não tinha qualquer importância. Era loira – não como a Carolina; esta parecia que tinha passado demasiado tempo sob o sol de Peniche da terra dela – alta e magra e conhecia todos os homens com quem nos cruzamos ao logo do canal. Ele sentia-se um sortudo por ser o escolhido e eu…bem…eu estava a tentar me conter porque sentia que algo tão grande como eu me encontrava estava prestes a acontecer. Daquela noite, pouco me lembro. Até consegui me sentir confortável naquela capa de látex, que me deu a cobertura que um sniper daria aos seus numa investida, quando entrei para aquele estranho e desconhecido mundo. Mas foi estadia de pouca duração. Não sei se pelo entusiamo dele, pelo aroma inebriante que paira constante naquela cidade ou pelos cinco Jenever. O que sei é que na manhã seguinte eu e Ele tivemos de voltar a pé para o hotel porque loira e carteira haviam desaparecidos.

Os anos passaram e de pouca companhia nós desfrutávamos. A verdade é que Ele também era seletivo e quando encontrava alguém que só estava interessado em lustrar o meu escalpe, saltava fora. Era o código da nossa irmandade: ou temos permissão para mergulhar e ir até o fundo da piscina ou nem entramos no clube. No novo trabalho Ele começou a sair mais com os colegas que o levaram à um lugar com muitas miúdas parecidas como aquela de Amsterdão, mas que já falavam a sua língua. E gostavam muito dela. E de mim! Especialmente de mim. Uma delas que parecia ter canela com açúcar na forma como pronunciava os tês e os ésses disse que tinha uma surpresa para Ele. Não me venham dizer que aquele lugar era bom porque não era: eu mal lá cabia, o ambiente era mais seco que o calcanhar gretado dele e podia-se ver que ela havia almoçado feijoada transmontana. Mas pela amizade, para não o deixar ficar mal, porque é nestes momentos de aperto que ajudamos um ao outro, lá lhe dei o que ele queria e ela implorava não sei como. Gosto do aconchego, mas preciso de um mínimo de espaço de manobra para…gozar o momento.

A partir daí Ele se tornou mais desinibido. Pelo menos para isso aquela experiência traumática me serviu. Estive em lugares novos, alguns com um pórtico deplorável a cair para os lados, outros que me faziam pensar que havíamos voltado aos anos 70 e outros ainda que lembravam o turbolance do aquaparque de Amarante com entrada livre e desimpedida.

Numas dessas idas e vindas, Ele conheceu a Samanta. Ela tratava-me mal, dava-me pouca atenção e na verdade até acho que tinha ciúmes da minha relação com Ele. Mas Ele gostava dela e eu ia aceitando. Um dia acabou por acontecer de eu lhe deixar literalmente de mãos a abanar. A equipa dele ganhou o campeonato nacional depois de 15 anos nos lugares mais baixos da tabela. Dez príncipes, três CRs e um duplo XO deixaram-no mergulhado num tal estado que se me dissessem que Ele seria dissecado eu acreditaria. Com muita dificuldade Ele chega à casa e lá está a Samanta. Não lembro da conversa – até porque quando ele se encosta àquela rulote junto ao Alto dos Moinhos, já sei que vai ser uma noite para esquecer mesmo – mas o que sei é que ela queria comemorar e que a dado momento fui chamado para fazer par com as suas cordas vocais. Eu estava demasiado embriagado para cantigas e na manhã seguinte, já não havia ninguém para me maltratar o coiro. Honestamente não lhe fez grande diferença e voltamos a nossa rotina de bros.

Foi aí que a Nina entrou na vida dele. Foi a primeira e única a reconhecer o meu valor batizando-me de Hulk porque eu mudava de tamanho quando ela mexia comigo. Não havia lugar nela onde eu não estivesse feliz. Carinhosa e selvagem ao mesmo tempo foi com ela que conheci o sentido da vida. Ela levou-me para o meu primeiro banho de mar a sério e ajudou-me a me entender melhor. Tudo rodava em torno de Nina. Ou melhor, Nina é que rodava em torno de mim. Aliás se agora estou aqui é por causa dela. Percebi que eu tenho uma voz própria e não sou apenas uma antena emissora dos desejos mais profundos dele. Na, não! Até que um dia ela deixou de aparecer. Eu não tive tempo de perceber o que se passara porque rapidamente apareceu outra pessoa.

Débora era mais madura e isso notou-se logo à partida. Ou melhor, à entrada. Ela era uma feminista intelectualóide e deixou logo claro que eu era como a opinião política: é ótimo ter desde que não lhe enfiasse goela abaixo. Há pouco e pouco nossa relação foi ficando distante. Senti que ela reprimia o verdadeiro eu dele e quanto mais isso acontecia mais eu era abafado até chegar ao ponto de parecer uma banana que ficou esquecida dentro de um saco plástico no porta mala do carro durante todo o mês de agosto. Fui forçado a me reduzir à mera função mictória a favor da ditadura do estrogénio.

Não posso continuar a permitir isso! Estou farto de ser escravo dos melindres dele e dela e por isso quero a minha independência!…

Se estou feliz ao dizer isso? Claro que não! Mas Ele quebrou o contrato que tínhamos, esqueceu-se dos desertos e dos túneis que atravessamos juntos. Isso não se faz. O que pretendo fazer? A verdade é que dependo dele. E Ele de mim. Somos indissociáveis e ele sabe que sou uma extensão da personalidade dele.

Humm…estava aqui a ver…o Super Kamarga está sem portes de entrega e o Pornhub estreou uma nova categoria. Um priapismo é tudo o que eu precisava agora para me sentir vivo de novo. Lembrei-me que Ele tem uma vizinha nova. Talvez pudesse chamá-la para um café. Afinal, como diz o poeta “não farás nem terás bicos sem bicas”. A vida é curta e fica mais dura com o tempo. Menos a minha. Há que se aproveitar.

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