João apresentou-me Matilde.

Não me peçam para estar o tempo todo a pensar em artigos e na regência dos verbos. Minha mãe se ler isso ainda lhe dá um treco. Mas, mamãe, eu amo a língua tanto que a deixo correr solta como um filho brinca na lama num dia de chuva e suja a roupa alva acabada de engomar. É assim mesmo e a gente sabe, mamãe: a roupa foi feita para cobrir o corpo da criança que brinca alheia as horas que se passaram para fazer uma camiseta branca, limpa e bem passada, onde se estampa o seu zelo.

É essa a liberdade destas linhas.

João apresentou-me Matilde.

Ele sabe que eu gosto de poesia. Ele disse “leva o jóquei”. Eu levei. E mais outro. Foram 19 anos até eu conhecer o João. Eu sou paciente. Ele é mais novo que eu. Ele me levou para uma balada de sonho e me trata por diminutivo querendo me aumentar porque sabe que no diminuto cabe a grandeza de um piano forte. Altruísmo e generosidade caminhando lado a lado. Um dynamic duo. E ele ama a mulher dele.

Mas ele me apresentou a Matilde e também o Pedro. Mexia disse que ela escreve português em dupla nacionalidade e dupla grafia. E isso foi como quem pega na minha mão e diz que eu também sou portuguesa. Nascida na junção do 23 com o 46 do trópico de capricórnio e essa língua-árvore frondosa no DNA. Que forma um caleidoscópio por entre as frestas das folhas que deixam passar a luz desenhando formas na sombra. É a mesma planta, o mesmo sol.

Daí vai que Matilde foi comigo de viagem.

Na madrugada insone quis saber o que ela tinha a me contar. O espírito já talhado torceu o nariz, tamanha a minha ignorância. Ao terceiro dia feito sétimo o raio da epifania fez-se ouvir com o ronco do 320. “Deixe-se de coisa, menina! Vá ser quem você quiser, quem tu quiseres.” Não me peçam para pensar o tempo todo no sítio-lugar dos pronomes pessoais. Isso lá dá jeito para a palavra?

Deixa-a pensar que a lama é a piscina da Praia das Maçãs e a chuva as Cataratas do Iguaçu.

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