Carrosel | II Acto – Raiva

O homem está sentado no banco. Entra a mulher de forma pesarosa e senta-se logo ao seu lado.

Homem – Estás mais magra.

Mulher – Nem uma taça Itália da Conchanata é capaz de me abrir o estômago.

Homem – É curioso como o nosso estômago funciona como um cérebro emocional.

Mulher – Apetece-me bater com o meu contra a parede.

Homem – Haverias de fazer uma figura engraçada. Mas quem visse ia pensar outra coisa.

Mulher – Simplesmente não consigo acreditar que isto me aconteceu. E que de certa forma fui eu a causadora da minha desgraça.

Homem – Um relacionamento não se faz sozinho. It takes two to tango, não é o que dizem?

Mulher – Mas fui eu a terminar a relação.

E agora sou eu a levar com o luto…Não consigo lidar com esta perda.

Homem – Oh, muito obrigado. Pensava que estávamos no bom caminho. Já estava a pensar no quanto iria cobrar por estas sessões…talvez até fizesse obras na sala…

A mulher ri levemente pela tentativa do homem de amenizar a sua culpa.

Mulher – Como é que superou a perda da Mila?

Homem – Levou o seu tempo. Quanto maior o compromisso, maior o luto. Foram 40 anos de um casamento feliz e há 2 uma tentativa diária em lidar com as memórias e com a ausência que ela deixou.

Mulher – És feliz?

Homem – Sou feliz porque apesar de quem eu mais amo não estar cá sei que temos boas recordações. Prefiro estar vivo com saudades dela do que o contrário. É o quanto a amo.

Mulher – O Leo anda por aí.

Homem – Talvez ele esteja perdido.

Mulher – Sim, talvez. Mas ele não me atende. Não responde às minhas mensagens.

Nós estávamos a tentar pela terceira vez estarmos bem, ficarmos juntos…o nosso amor foi forjado ao longo de 7 anos com suor e lágrimas. Idas e vindas. Acho que não tivemos a maturidade necessária para saber lidar com as nossas histórias individuais.

 Eu deixei uma vida construída, estável, para trás por ele, por nós. Mas não esperava que isso me levasse ao lugar de tristeza, de desconstrução que me levou. E depois…toda a alegria de reconstruir uma vida com ele parecia ser apenas um peso a ser carregado. E com o qual eu não conseguia suportar.

Homem – O que vos aconteceu?

Mulher – Eu não fui capaz de lidar comigo mesma e tinha tanto medo de que a minha tristeza o afetasse que pedi para ele sair da minha vida.

Mas o nosso amor era tão bom que ele voltou. Voltou, mas sem fé. Cauteloso, como ele dizia. Receoso de amar. E aí eu já não o reconhecia. Já não era o meu Leo. Parecia que havia uma fadiga emocional entre nós. Varava noites a pensar no quão indigno e errado isto era comigo. E pedi para ele ir embora. Mais uma vez. E desta vez, ele foi de vez. Sem olhar para trás. E eu fiquei só. Eu e a minha dor.

Homem – O luto é o preço que pagamos pela coragem de amar os outros.

Mulher – Eu não consigo mais ser corajosa. Já não tenho força pra isso. Penso tanto nele que já não consigo dormir. Só consigo me sentir frustrada por ter sido tão precipitada e saber que agora já não consigo voltar atrás.

Homem – O que te leva a pensar isso?

Mulher – Ele já tem outra.

Homem – Apressado o rapaz.

Mulher – Leva-me a crer que já planeava isso. O que só me deixa com mais raiva.

Homem – Não consegues controlar tudo o tempo todo. Estás a sofrer, mas o que perdeste é o mesmo que pode acabar com esta angústia.

Mulher – Onde é que eu arranjo isto? Diz-me já.

Homem – Começa por aceitar a perda.

Mulher – Não. Nunca! Nunca vou desistir dele! Já pensei em desistir de mim, mas nunca dele.

Homem – É sempre bom ter um plano B.

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