Carrossel | III Acto – Barganha

A mulher está sentada no banco. O homem chega e senta-se ao seu lado.

Mulher – Já estava a pensar que tinhas ido fazer companhia à Mila.

Homem – Um dia. Esta é a única certeza que tenho na vida.

Mulher abre um grande sorriso e dá um pequeno salto sentada de entusiamo.

Mulher – Ele respondeu!

Homem sorri de leve.

Mulher – Falamos do trabalho, dos cursos que estamos a fazer. Falamos da minha mãe e dos pais dele. Falamos de família e de coisas em comum. Acho que a porta não está totalmente fechada.

Homem – Os teus olhos ficam mais bonitos com este brilho.

Mulher – Adoro o facto de me elogiares porque sabes que vou começar a me sentir culpada.

Homem – O que tencionas fazer agora?

Mulher – Voltar a me aproximar aos poucos. Não quero assustá-lo.

Homem – Mas ele deu a entender que também quer isso?

Mulher perde um pouco o entusiamo.

Mulher – Mila, ele está a esfriar o meu ânimo. Faz alguma coisa, sim?

Homem – O quanto aquilo que olhas ainda é apenas um reflexo do que viveste e o quanto é realidade?

Mulher – Somos ensinados a vida toda a acreditar, a correr atrás dos nossos objetivos. O que sei é que não quero deixar essa luz se apagar.

Homem – Acreditas que ele volta?

Mulher – Talvez seja igual à forma como as pessoas olham para a existência de Deus. Talvez nem acreditem, mas é conveniente acreditar para que não custe tanto.

Homem – Pois. Se Deus existe é melhor ter uma boa desculpa.

Mulher – Como Buñuel, eu sou ateia. Graças à Deus.

Homem – Por Ele existe algo em vez de nada. Leibniz.

Mulher – Pelo Leo eu vou continuar a acreditar que reverto a nossa separação.

Homem – Mesmo estando ele com outra pessoa.

Mulher – Mesmo estando ele com outra pessoa.

Mulher – Como é que conheceste a Mila?

Homem – Foi no metro. Apanhávamos a mesma linha todos os dias, mas em lados opostos. Um dia ela desceu as escadas do mesmo lado que eu da plataforma e parou ao meu lado. Perguntou-me as horas. Disse-lhe que eram as mesmas do relógio dela. Desde então decidimos passar o nosso tempo juntos. E assim foi.

Mulher – E assim continua a ser.

Homem – O amor é como uma planta que se deve regar com a quantidade certa de água, adubar periodicamente, proteger do frio, colocar ao sol nas horas certas. Se soubermos cuidar, a raízes crescem fortes, bem estruturadas e com o tempo colhemos os frutos.

Mulher está pensativa.

Mulher – Eu estou a tentar. Ponho-me a par da vida dele. Envio-lhe mensagens relacionadas com assuntos que sei que ele aprecia. Ligo para a mãe dele. Damo-nos muito bem. Tento me manter por perto à distância. Não quero que ele me veja como uma predadora.

Homem – Achas que isso o trará de volta?

Mulher – É a única coisa a qual consigo me agarrar neste momento.

Homem – Cada um alcança a verdade que é capaz de suportar.

Mulher – (indignada) Aceitaste a partida da Mila com esta mesma leveza?

Homem – Não. Mas de cada vez que me lembro da vida que tivemos, sinto-me o homem mais sortudo do mundo.

Homem – O verdadeiro sofrimento é passar por uma doença, como ela passou. Ela encarou todo o pesar com tanta dignidade que seria injusto com ela se eu não me esforçasse por continuar a ser a pessoa que ela viu em mim. Nunca superarei a perda dela. Mas a dor transformou-se em paz porque acredito que é assim que ela está agora.

Mulher está comovida.

Mulher – Sinto tantas saudades dele…

Homem a consola colocando uma mão no seu ombro.

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